A língua é uma força biológica:  não se pode modificá-la com uma decisão política.


(*)  Nelson Valente



Agora, a unificação ortográfica tornou-se viável, de certa forma respeitando-se ainda o critério fonético (ou da pronúncia) em que se baseia na ortografia portuguesa. Mas desde logo um fato que nos tranquiliza: morreu o trema em palavras portuguesas ou aportuguesadas. Era um sinalzinho que não servia mesmo para nada.

Cabe-nos denunciar os maus usos da língua nessas formas de comunicação, para que seus erros não venham a ser motivo de vergonha para nós. Entre as incorreções que destoam no uso da língua, são frequentes pequenos descuidos, até perdoáveis, mas há casos de barbarismo contra a pureza da língua nos aspectos sintáticos, regenciais, ortográficos, sem falarmos de troca tão comum de tratamento, como também de organização ilógica de ideias, o que acarreta, frequentemente, ambiguidades e interpretações errôneas de pensamento. A língua é uma força biológica: não se pode modificá-la com uma decisão política. Pode-se, quando muito, influenciar o uso. É uma função dos jornalistas, escritores, professores e da mídia.

Um bom uso mostra-se pela flexibilidade com que as palavras são aceitas. Todas as línguas estão repletas de palavras estrangeiras que foram naturalizadas. Os editores, os donos de televisão, jornais e os críticos literários não entenderam que houve uma revolução espiritual, que o nível geral subiu. Comunidade Linguística da Língua Portuguesa: em que se luta para que o português seja reconhecido também como língua oficial da ONU; em que o português vai alcançando o 4º lugar entre as línguas mais faladas no planeta. Não podemos deixar que ela se desfigure e se deturpe de maneira tão galopante, como está acontecendo nos meios de comunicação. Em geral, o erro linguístico depõe contra quem o cometeu.

Convivemos neste século (desde 1911) com duas ortografias oficiais da língua portuguesa, o que sempre foi prejudicial. Aí pode estar à razão de não ter sido o português acolhido, na família ONU, como língua oficial. Em 1931 estabeleceu-se o primeiro acordo ortográfico em ter Brasil e Portugal, sem efeitos práticos. A convenção de 1943 e depois as de 45, 71 e 75 mantiveram sérias divergências. Portugal rejeitou o acordo de 86, com a participação de toda a comunidade lusófona, mostrando que a imposição de uma unificação ortográfica absoluta jamais seria aceita.

Cada língua propõe um modelo de mundo diferente. Por isso não é possível tentar instituir uma língua universal. É preciso, portanto, tentar passar de uma língua para outra. Eu sou a favor do polilinguísmo. A diversidade das línguas é uma riqueza. Esse é um fato indiscutível, ligado, provavelmente à natureza humana. Durante séculos, não desfrutamos desse tesouro, porque sempre houve uma língua que predominava sobre as demais: o grego, o latim, o francês, o inglês. Creio que, dentro de uma geração, teremos uma classe dirigente bilíngue. Desconhecer as línguas sempre produz a intolerância. Conhecê-las, porém, não é garantia de tolerância. Nos Bálcãs, os sérvios e os croatas entendem-se, e, contudo... No passado, os que se revoltavam mais ferozmente contra o colonizador haviam estudado na metrópole. Pode-se massacrar uma população conhecendo-se perfeitamente sua língua e sua cultura.

O conhecimento torna-se, então, um elemento de irritação ou de rejeição, do mesmo modo que um marido e sua mulher podem acabar brigando cada vez mais a medida que vão convivendo. A língua tem razões que a própria razão desconhece. Minha filha, que é bilíngue, pediu à sua mãe uma noite dessas: “Mamãe, conte-me uma Geschichte.” Para ela, Geschichte é o conto, a história de Chapeuzinho Vermelho. Para nós, é História em 12 volumes.

Os franceses fazem de conta que brigam com o inglês, mas têm medo mesmo é do alemão. Desde a queda de Berlim, a Europa do Leste transformou-se num bolsão de poliglotismo alemão e há muita probabilidade de que o alemão se imponha na Europa! Nunca, no mundo, alguém conseguiu impor a língua estrangeira dominante.

 Os romanos foram mestres do mundo, mas seus eruditos conversavam em grego entre si. O latim se tornou a língua europeia quando o império romano desmoronou. No tempo de Montaigne, o italiano era o vetor da cultura. Depois, durante três séculos, o francês foi a língua da diplomacia. Por que o inglês, hoje? Porque os Estados Unidos ganharam a guerra e porque é mais fácil falar mal o inglês do que falar mal o francês ou o alemão. O que não impede que os franceses falem de uma "colonização" de sua língua pelo inglês.

O filólogo Antônio Houaiss costuma dizer que “a língua portuguesa tem enorme vitalidade e cresce toda noite”. Quando dirigiu os trabalhos de montagem e edição do Vocabulário Ortográfico, uma obrigação da Academia Brasileira de Letras totalizou cerca de 350 mil verbetes, mas hoje desconfia que o número possa ter subido para 400 mil.

O acordo ortográfico de unificação da nossa língua não passa de 2% desse total, estaremos diante de aproximadamente oito mil vocábulos para serem apreendidos pelos que usam o idioma como ferramenta de trabalho, como é o caso de professores, escritores e jornalistas.

Segundo o acadêmico, Arnaldo Niskier: “É preciso, porém, ainda mais agora com a decadência do ensino e a enormidade de erros veiculados pelos meios de comunicação, distinguir o que pode ser (ou vir a ser) que agride o vernáculo, transfigurando-o, impregnando-o de palavras e expressões alienígenas, absolutamente dispensáveis, tolos modismos e até mesmo erros crassos”. A unificação chegou em boa hora.


(*) é professor universitário, jornalista e escritor.

 

 

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

 

 

Penitenciárias de segurança máxima ou Educação Máxima?

 

(*) Nelson Valente

 

Enquanto as rãs coaxam, assiste-se à discussão pública em segurança em torno da implantação de penitenciárias de segurança máxima, em vários pontos do país. Enquanto se pensa na segurança máxima, a preocupação com a educação é mínima, reduzida a questões burocráticas.

 

Nas grandes cidades, os assaltos são sucessivos, não se tem garantia de nada, mata-se por qualquer bobagem.

 

A droga comanda as ações desses celerados.

 

Vivemos num país com enormes desigualdades sociais (desigualmente desiguais), com altos índices de desemprego e não se espere que não tenhamos um preço a pagar por isso.

 

Ninguém pode condenar a ideia de se ter penitenciárias com o rigor desejado, nesse eufemismo dasegurança máxima. O que pleiteiam os educadores e os homens de bom senso é a solução de base, ou seja, escola para todos educação máxima.

 

Os próprios governantes brasileiros reconhecem que, em virtude da incidência de muitos crimes, os governos são obrigados a dedicar grandes somas às polícia e ao sistema judiciário. Melhor fariam, é claro, se pudessem colocar esses recursos para melhorar o atendimento educacional, oferecendo uma solução de raiz, que falta ao Brasil.

 

Não pode haver indiferença do Estado, enquanto cresce essa lamentável criminalidade. Se o cidadão fica responsável pela sua própria defesa, fazendo justiça por conta própria, com a privatização do poder de polícia, corremos o risco de uma guerra civil.

 

A educação brasileira precisa ser urgentemente repensada, no bojo de uma grande reforma social. Mas enquanto as questões mais simples não forem devidamente resolvidas pela “burocracia governamental” parece que continuamos na firme disposição de enfrentar os grandes problemas educacionais através do discurso bonito, inflamado, sem consistência.

 

Está na hora de mudar isso. A educação é o caminho, antes que o país afunde de vez na ignorância, miséria e violência.

 

(*) é professor universitário, jornalista e escritor

 

 

 

 

 --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

 

 “NOTÓRIO SABER ” ?

 

(*) Nelson Valente 

 

A formação de professores no Brasil tem vivido sucessivas alterações e reformulações normativas e, em decorrência disso, têm surgido muitas dúvidas e perplexidades sobre a interpretação da legislação no momento da contratação de docentes. A prática tem demonstrado que as situações de desconforto legal persistem, provocando interpretações variadas e muitas vezes impossibilitando a contratação de professores em regiões carentes de profissionais licenciados.

 

Vivemos, portanto, ao contrário do que prega o discurso oficial,um processo de “desprofissionalização” do magistério. A proposta do MEC de integração das disciplinas do ensino médio sinaliza uma manobra em uma tentativa de "resolver a falta de profissionais" no País.

 

Vale esclarecer quea Resolução CNE/CP 02/97 tinha objetivo expresso de suprir a falta de professores habilitados em determinadas disciplinas e localidades, em caráter especial, procurando seguir a orientação presente na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN nº 9394/96, qual seja, a de proporcionar via de acesso ao magistério aos portadores de diplomas de cursos superiores distintos de licenciaturas.

 

Finalmente, após longos cinco anos de solicitações e resistências, o próprio CNE colocou em sua pauta de discussões a discussão da Resolução nº 02/97, que permite aos graduados de qualquer área se licenciarem professores, mediante uma complementação pedagógica de 540 horas, das quais 300 horas como estágio.

 

É bom salientar que a carga horária estudada pelos alunos nas Licenciaturas que precederam a entrada nos “Programas Especiais”, nas disciplinas objeto da habilitação, foi considerada satisfatória pelos professores. Na relação anexa, estão especificadas as cargas horárias das disciplinas estudadas pelos alunos, nas Licenciaturas que antecederam a entrada nos “Programas Especiais”.

 

Conforme dispõe a Resolução 02/97, compete à Instituição verificar a compatibilidade entre a formação do candidato e a disciplina para a qual pretende habilitar-se:

 

Resolução 02/97

“Art. 2º - ...

Parágrafo único – A instituição que oferecer o programa especial se encarregará de verificar a compatibilidade entre a formação do candidato e a disciplina para a qual pretende habilitar-se”.

A mencionada Resolução enfatiza, ainda, sob o ponto de vista pedagógico, a necessidade de assegurar o caráter interdisciplinar e a integração de conhecimentos.

 

(*) é professor universitário, jornalista e escritor

 

 

 

 

-----------------------------------------------------------------

 

Sem professor habilitado,só milagre!

 

(*) Nelson Valente

 

 

Os países desenvolvidos, como a Inglaterra, experimentaram unificar as disciplinas do ensino médio sem sucesso. A sorte é que eles têm mecanismos rápidos para reverter uma decisão dessa magnitude.

O MEC, ao invés de atacar o problema principal que é a de formação de professores, inventa mais uma moda: "modismo" da integração e das disciplinas. O Brasil não tem uma Pedagogia. Tem várias, sobrepostas, muitas vezes sem conexão umas com as outras. A história da Pedagogia brasileira é uma espécie de colagem de modelos importados, que resulta em um quadro sem sequência bem definida.

Não existe uma pedagogia “pura”, ou seja” sem influência de outras pedagogias ou do contexto social em que se desenvolve. Última moda é o Construtivismo, que nem é método pedagógico, mas sim um conjunto de teorias psicológicas sobre as estratégias utilizadas pelo ser humano para construir o seu conhecimento.

Ainda que o conhecimento seja integrado, o estudo tem de ser dado de forma desintegrada porque em algum momento haverá necessidade de se ter todas as bases para formar o conhecimento integral.

 A reforma do ensino médio por meio de Medida Provisória evidencia que o governo de Michel Temer está sem rumo. O que me preocupa é que os mesmos que conduziram a desastrada política do MEC na era do FHC estão por trás dessa nova reforma. A Lei de Atualização e Expansão do Ensino de 1º e 2º Graus – Lei n.º 5.692, de 11 de agosto de 1971 - o 2º grau, com três ou quatro séries, apresentando uma terminalidade para permitir o engajamento em atividades profissionais de nível intermediário e o aproveitamento de estudos específicos no curso superior. A Lei n.º 7.044, de 18 de outubro de 1982: altera dispositivos da Lei n.º 5.692, de 11 de agosto de 1971, referentes à profissionalização do ensino de 2º grau. Foram muitas as leis definidoras da educação brasileira. Enfrentando muitos atropelos e uma vida média, em geral, inferior a dez anos, sucederam-se as reformas.

A mudança chamou atenção e provocou discussões no país ao incluir a possibilidade de escolha de diferentes trilhas de formação tradicional e técnica, educação integral e autorizar a contratação de professores sem licenciatura, mas que apresentem "notório saber": sem professor habilitado, só milagre!

O que deve ser considerado prioridade no ensino médio, são investimentos pesados na qualificação de professores que possam preparar os alunos antes do ingresso nas universidades. Hoje o indivíduo que conclui o ensino médio não está habilitado a nada. É apenas um generalista não preparado para o mercado de trabalho.

 

(*) é professor universitário, jornalista e escritor

 

 

VEJA COMO COMPRAR

 

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 

 

 

O SONHO REALIZADO

Gerson Augusto Gastaldi

Sonhos. Realizações. Anseios de conquistas. Felicidade. Quem não os procuram?

 

Essas associações de imagens, agrupadas na mente por ideais almejados e ideias acalentadas, revelam muitos significados ocultos, cujos símbolos entrelaçam no inconsciente humano um feixe de arquétipos, cujas formas de satisfação pessoal ou individual levam cada sonhador a um determinado canal visual, enxergando nele, um ícone representativo às suas aspirações, planos, sexualidade, apetites ou ambições.

 

Tais elementos psíquicos e mentais também se traduzem em ficções, utopias, fantasias ou realidades visionárias, as quais se apresentam abstratas, através das visões oníricas, simbolizando elas: posse, riqueza, cura, a casa própria, viagens, casamento, a formatura, o grande amor, uma paixão, etc., entre diversas ilustrações, figuras e formas, como sendo os seus objetos de conquistas e desejos. No entanto, na busca dos seus inúmeros ideais, o ser humano procura os mais variados meios para alcançá-los, quer seja através do trabalho árduo, estudos, façanhas diárias ou por meio de apostas, prognósticos, sortilégios, jogos, etc...

 

Desse modo as aspirações de cada indivíduo são filtradas por seu inconsciente na forma de sonhos ou percepções psíquicas. Todavia, quem sonha quase sempre acredita nas imagens formadas pelas visões que a mente projeta a fim de alcançar os seus objetivos ou seus anseios reprimidos ou não satisfeitos ainda em vida. 

 

Esse fator, muitas vezes acaba gerando uma certa obsessão, cuja insistência se transforma em obstinação ou um vício incontrolável. Tal comportamento induz o indivíduo viciante a jogar recorrentemente, cuja persistência pode torná-lo miseravelmente um grande perdulário.    

 

Sergio Ventura era um apostador inveterado, residente na capital Porto Alegre/RS, cujo comportamento antepunha-se a todos os métodos que apareciam para lograr a sorte grande. Esse vício de jogar infiltrou-se em sua personalidade sedentária, causando-lhe um transtorno mental denominado pelos analistas de “ludomania” ou “jogo patológico”.

 

Todavia, tal compulsão manifestava-se nele como uma máscara obscura a lhe vedar sua consciência real, levando-o à total obsessividade para o jogo.

 

O jogador não titubeava em apostar com os números, envolvendo-os em símbolos e fantasias, quer seja por meio dos sonhos, enleados às deduções e intuições que se apresentavam em sua mente ou através da exposição de numerogramas relacionados à fauna terrestre ou horóscopos, cujos bichos e signos sugestionavam as suas incontáveis jogatinas.

 

Tudo isso fazia de Sergio Ventura um complemento contundente aos jogos, alicerçado por imagens inabaláveis que fluíam do seu inconsciente, e cujos arquétipos, o levavam acre-ditar no poder invisível dos números para urdi-los numa programação sortílega incontrolável.

 

Tal projeção impulsionava-o, vedando-lhe os sentidos naquela máscara superficial e antagônica ao seu caráter de cidadão otimista, enxergando por essa carapuça apenas a possibilidade da sorte coincidir com suas apostas. Seria assim uma ‘obsessão jogatícia’ que lhe acometia os impulsos, dominando-o sem cessar num emaranhado de apostas e prognósticos.

 

O jogador também era sugestionado por diversos elementos casuais realistas além dos sonhos, como os dias do mês, aniversários, festividades, placas de automóveis, números de residências, algarismos das cédulas monetárias, enfim, o apostador tecia várias probabilidades para lançar sua sorte neles, dentro das suas possíveis combinações.

 

Toda compulsividade para alcançar algo almejado, como conforto ou riquezas, leva o indivíduo a comportamentos esdrúxulos, inclusive, a dispor de bens, objetos e dinheiro. No entanto, a Sergio Ventura, o hábito quase fazia o monge. Para que jogasse um bom montante não era preciso um pretexto significativo que o fizesse acreditar na possibilidade de arriscar qualquer dinheiro para ganhar uma bolada.

 

Desse modo, em regra, ele apostava o habitual, dosado numa quantia modesta dentro do seu orçamento um tanto precário. Contudo, não se abstinha de jogar todos os dias, lançando seu pão nos bichos, extrações das loterias, rifas, bingos, raspadinhas, etc. Conquanto que não deixasse de apostar, ele conseguiria ser feliz, dormir em paz e a sorrir também.

 

Os sonhos eram muito significativos para esse lançador de dados. Poderiam traduzir um bom palpite, uma aposta bem sucedida, enfim, também um lance ariscado. E como sói acontecer, ele sonhava, mas suas visões oníricas induziam-no somente aos jogos, combinando-as com múltiplas inferências, entre apostas, números, imagens, prognósticos e sortilégios.

 

Foi assim que numa noite turbulenta Sergio Ventura teve uma visão incrível.

 

         “Ele sonhou que batiam à porta da sua casa, chamando-o pelo nome. Ao atendê-la, visualizou de longe dois veículos estacionados em frente ao portão. Em seguida, deparou-se com dois homens, cada qual com um papel nas mãos a lhe anunciar de que acabara de ganhar um carro novo em cada raspadinha. Os alvissareiros visitantes pediam que assinasse as notificações dos prêmios. Nisso, quando pegou da caneta para firmar os papéis e receber os prêmios, ele acordou repentinamente”.

 

Acordou sim, com a imagem do sonho na ponta dos olhos e não mais conseguiu dormir de tanta emoção. O impulsivo jogador constatou em sua mente que a visão era um prenúncio bom, e, certamente, um aviso para arriscar a excelente jogada da sua vida.

 

Assim que se levantou de manhã, ele o participou à sua mulher, que de praxe já sabia da sua ansiedade perdulária, cujos impulsos desenfreados de jogar procediam de uma influência mórbida, insofreável. Mas de chofre, ela o interrogou:

– Sergio, você tem dinheiro para comprar raspadinhas?  

– Sim querida, tenho alguns sarrafos! Exclamou ele.

 

 Na realidade, Ventura possuía dentro da carteira somente a quantia reservada para pagar as contas de água e luz que já haviam vencidas há mais de quarenta dias e o valor de ambas importava em R$ 201,00. Se não as quitasse logo, o seu imóvel corria o risco de ter o corte consumado dos serviços, pois já havia recebido as cartinhas de cobranças por suas inadimplências já um tanto atrasadas. 

 

Assim que tomou o seu café matinal ele saiu afoito para o centro da cidade e logo que abrisse a Lotérica “Bom Palpite”, onde já estava acostumado a jogar, iria então escolher os bilhetes de raspadinhas que sorteassem veículos novos.

 

Sergio Ventura estava convicto de que recebera um aviso infalível e não poderia desperdiçar tal oportunidade, visto que um sonho assim não acontece duas vezes com um jogador. Era tudo ou nada. Quem não arrisca não petisca, dizia ele.

 

Ao ser atendido na Lotérica, sua euforia era tanta, que sacou da carteira o dinheiro para o pagamento das contas da água e luz e lançou-o à atendente, dizendo:

– Moça, eu desejo que converta essa quantia em raspadinhas, mas aquelas que sorteiam carros, a R$ 3,00 cada uma, está bem? – Quantas delas você tem aí?

A jovem um pouco admirada, contou os bilhetes e anunciou-lhe:

– Tenho apenas 32 unidades moço e vão lhe custar R$ 96,00.

– Pois então, venda-as para mim que irei levá-las. Requisitou à caixa, bem acalorado.

 

O contumaz apostador recontou o dinheiro que portava e viu que ainda lhe restavam a quantia de R$ 105,00. Não titubeou. Encaminhou-se rapidamente a outra lotérica não muito distante dali, cujo nome era: “O Sonho Realizado”. Com a quantia já nas mãos ele adquiriu outras 35 unidades da mesma espécie de bilhetes.

 

Depois disso, satisfeito com a aquisição das 67 unidades da sorte – sem pagar as contas da água e luz – apressadamente, pegou o rumo de volta para casa, pois desejava raspá-las uma a uma, bem confortável e sossegado.

 

Já em sua residência, perto da mulher, ele, na posse de uma faca foi raspando uma a uma todas as unidades obtidas dos bilhetes denominados “Show Car, dá Sorte”.

 

Nessa tarefa, a cada um deles que iniciava a raspar, o impulsivo exclamava:

– Chegou o meu carro! – Acho que agora ele sai! – Esse é batata, com certeza!

Quando Sergio acabou de friccionar a penúltima raspadinha sem nada encontrar nela, ouviu que batiam à porta da sala e chamavam por ele:

“Sr. Sergio Ventura, por favor!”... Rapidamente foi atender a chamada para saber quem o procurava. O sonhador divisou encostado na frente do portão do imóvel, duas caminhonetes novinhas. Mas não conseguiu discernir de onde estava, que em cada uma delas havia inscrições comerciais a identificá-las.

 

O inveterado jogador imediatamente se interrogou esperançoso:

“Caramba! Será que o meu sonho irá mesmo ser realizado ainda hoje?”

Os homens uniformizados já à porta com um papel nas mãos, indagaram-no:

– O senhor é o proprietário da residência?

 

O morador, bem alegre e prestativo confirmou:

– Sim, Sergio Ventura às suas ordens, meus amigos.

O primeiro homem apresentou-lhe um crachá, exibiu uma comunicação e anunciou bem sério e contundente:

– Senhor Sergio Ventura, eu sou da Companhia de Energia Elétrica e tenho autorização para lhe cortar o fornecimento por falta de pagamento do consumo.

 

O segundo homem, também se identificando, entregou-lhe uma notificação e com ênfase a comunicou:

– Sr. Sergio, eu sinto muito. – Sou da Companhia de Água e Esgotos e estou incumbido de lhe cortar o fornecimento da água por inadimplência também.

 

O dono da casa, imperturbável, sorriu para os homens e lhes declarou convicto:

– Estejam à vontade, senhores! – E podem fazer o serviço tranquilamente.

 

Os dois homens se entreolharam admirados.

Sergio Ventura os elucidou conformado:

– Isso mesmo, amigos! – Saibam que hoje, finalmente, o meu sonho foi realizado aqui em casa, porém, terei que pedir emprestado os R$ 201,00 para quitar essas contas atrasadas.

 

*****

 

* Caso realista coligido na Grande Porto Alegre, em 1997, relatado com adaptação no Livro:

 “O Colecionador de Máscaras”, por Gerson Augusto Gastaldi.

 

 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

POLARIDADES

Gerson Augusto Gastaldi

        

         Jean Marc, o desvairado, como era chamado, em sua adolescência sempre fora considerado um rapaz estranho. Isso ocorria devido boa parte das suas opiniões e condutas serem extrovertidas ao seu modo de expressar, também questionadas por tabus e preconceitos sociais.

         Com os pais, amigos e parentes, ele até exorbitava em suas fantasias, extrapolando-as em seus desejos mórbidos. Isto é: manifestava-as sem pudor, expondo os seus estímulos a orgias e desvarios, numa irrefreável propensão ao distúrbio de um sadomasoquismo. 

         O seu comportamento apresentava-se anormal, pois emitia em suas ocorrências apelos eróticos incontroláveis, inclusive, com algumas nuances andróginas, quando lhe incidiam os tais rompantes frenéticos. 1 transtorno bipolar.Entretanto, em outros aspectos, ele se reprimia numa transparente timidez, cuja inocência seria capaz de confundir até aqueles que não o conhecesse. Todas essas impressões aterrorizavam os seus poucos amigos, que viam nele um jovem depravado e conturbado mentalmente. Todavia, ele mesmo não se perturbava com esse fato, pois imprimia aos seus desejos um fadário natural de aberrações sórdidas e profanas.

          Jean Marc, indiferente aos rumores que se lançavam contra si, não cominava qualquer obstáculo para barrar os atributos lascivos que lhe ostentavam o caráter. Esse impulso devaneador talvez frisasse em suas atitudes um disfarce ambíguo ao seu ego, semelhante a uma máscara carnal de desejos relapsos, cuja postura encobria as suas propensões sexuais reprimidas.

          Nesse ponto de relacionamentos ninguém pode decifrar os sentimentos que atravessam as mentes dos anfibológicos, tampouco, os corações hipocondríacos se dão a tratamentos sem serem corretamente avaliados.

          Boatos ruins não esperam virar notícias boas. A reputação do moço não sobrepujava as expectativas de ser ele um candidato a qualquer compromisso sério. Todos sabiam disso. Porém, havia em seu relacionamento social um conselheiro espiritual que bem o conhecia a tempo. Essa pessoa tratava-se do padre Denis Révior, antigo pároco da bela e excelente cidade de Kingston, no Canadá, onde Jean nascera, crescera e fora educado.

          Quando se inteirou dos seus problemas perturbadores à comunidade cristã, o sacerdote, caridosamente, procurou ajudá-lo. Primeiramente, ele ouviu-lhe as confissões. Depois lhe ministrou os sacramentos. Em seguida o instruiu com uma cartilha psicoterapêutica de conselhos práticos sobre comportamentos sexuais e por último, o incentivou a colocar para fora da mente todos os impulsos bestiais a fim de que se libertasse daquela dominação demoníaca.

          Essa terapia seria quase que a preparação para um desbloqueio, ou seja: uma desobsessão. Mas por uma determinação conscienciosa e apostólica, o padre Révior não expulsava demônios e ficava sempre a se indagar:

          “Porque fluíam tantas aberrações naquele viçoso jovem? E qual seria o espírito trevoso que lhe arrebatava, perturbando-o, como se lhe espetasse um espinho na carne?”.

           Jean Marc também não estava feliz. Ante os horrores e polêmicas que causavam as suas tendências bizarras, procurou então estudar e saber as suas causas, estabelecendo regras de superação, oração e meditação, a fim de desvendar o melhor caminho que refreasse tais impulsos e pudesse remover essa máscara negra da sua mente.

           Desse modo, decorridos vários meses de luta mental, lenta e gradativamente, contando com a ajuda psicológica do sacerdote, ele aprendeu domar o seu instinto sexual invertido, até que logrou pleno sucesso nessa incursão.

           Foi uma pedreira, mas Jean Marc conseguiu escavar naquela montanha tenebrosa um túnel para a salvação, desobstruindo assim a passagem bloqueada da sua mente conturbada.

           Assim estabelecido, o antes impudico rapaz, descobriu que, para amortecer e dominar tais ímpetos necessitava do complemento feminino ao seu lado, ou seja, uma mulher que fosse a sua companheira e o seu elo adjutor. Só assim estaria em paz com as suas terríveis volições.

           Nessa conquista ele conseguiu então compreender e distinguir um simples fenômeno da física: a polaridade, cujo enunciado até hoje explica que: Dois polos iguais se repelem”, da mesma forma que “dois polos diferentes se atraem”.

           Isso lhe ensinou que a polaridade certa é encontrada também, sexualmente, nos instintos animais e humanos, levando-os a procurar um ao outro como parceiros para uma fusão profícua à procriação e sobrevivência das espécies, no seguinte enunciado: “O gênero masculino através dos machos, imantados em sua polaridade (+), instintiva- mente sente o imã sexual pelas fêmeas, imantadas em polaridade (–)”.

           Essa atração gravitacional polarizada cria a corrente dinâmica da vida. Tal compreensão elucida que nessa energia há um equilíbrio. A vida flui e desabrocha para manifestar-se dentro das forças mentais e espirituais. Já na igualdade de polaridades não há a ligação da energia mental imantada com a força espiritual geradora, sobrevindo daí uma inércia. Dessa forma a vida permanece fria e apagada, o corpo fica neutro e degradado, imperando nele apenas o instinto carnal e animalesco. Todavia, os animais também agem dentro dessa força bipolar e são estimulados através do cio e agem naturalmente, com algumas exceções, os hermafroditas por sua natureza e características da espécie.

            Essa descoberta o fez sentir-se como conquistador da felicidade, a qual está influenciada pela natureza dinâmica da criação em seu equilíbrio harmonioso. Mas para chegar a esse nível de superação desejada, o jovem Jean Marc abdicou da sua esdrúxula máscara sexual, a qual, anteriormente vedava-lhe a face da sua verdadeira identidade, para torná-lo então, insensível e embrutecido, semelhante a uma fera famélica.

            Contudo, dentro de uma psicoterapia adequada, a sua energia mental se sobrepôs aos   desejos carnais e ele pode se libertar do negro véu que envolvia o seu caráter numa densa escuridão. Assim ele renasceu imantado positivamente para a dinâmica da vida. 

            Logrou então encontrar o verdadeiro elo para a corrente da sua espiritualidade. Esse elo chamava-se Anne Sofie, a sua primeira namorada. Depois de alguns anos ela tornou-se a sua lídima esposa, que viria completá-lo na sua essência varonil a um princípio de harmonia e plena felicidade, doando-lhe dois belos filhos.

            Jean Marc conseguiu se libertar para renascer dentro da sociedade edificada na família, onde nela, um raio de luz flecha os corações e suas mentes saudáveis com a plena formosura do Criador. 

 

*****

1)transtorno bipolar - antigamente conhecido por "distúrbio maníaco depressivo", ou hipomania, é um distúrbio mental em

que a pessoa alterna entre períodos de depressão e períodos de elevado ânimo as suas tendências sexuais reprimidas.

 

Caso real relatado no Livro “O Colecionador de Máscaras” por Gerson Augusto Gastaldi

 

Experiência compilada em Jan./2015, em Quebec, Canadá, em parceria com a ONG: Fundo Canadá de Apoio a Iniciativas Locais –

 

 

   BRSLACFLI@international.gc.ca

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

 

A XENOFOBIA NA HISTÓRIA

DE UM JOVEM AMERICANO                                                                                             Gerson Augusto Gastaldi

 

           A segregação racial nos Estados Unidos tomou grande impulso durante a Guerra de Secessão ocorrida no país entre 1861 a 1865. Esse conflito trouxe à tona uma série de interesses políticos, tanto de industriais, como de fazendeiros agrários e escravagistas, estabelecendo assim, inúmeras diferenças raciais e sociais entre negros e brancos arraigados pelos estados do Norte e Sul da nação. Nessa luta, os arrivistas do Sul, liderados pelo presidente dos Confederados, Jefferson Davis, queriam a separação de seus Estados desvinculados da federação americana, devido os Estados do Norte, comandados pelo então presidente republicano, o abolicionista Abraham Lincoln, manifestar o fim da escravidão dos negros no sul e sudeste do país.     

            Após o fim da guerra civil, vencida pelos Estados do Norte, até hoje a repercussão desse conflito étnico-racial vem deixando marcas irreversíveis nos Estados sulistas da nação, tragédias marcantes e sangrentas, como as que ocorreram nas cidades de Selma e Memphis, no Tennessee, em 1998. Tais episódios, na verdade, tatuaram um ódio irracional nos corações de jovens alucinados por ideologias nazistas e segregárias, advindo daí o xenofobismo racial.

            Traço aqui o resumo de um caso real, o qual gira em torno de um tennessiano nativo, natural de Nashville, morador na cidade de Selma, no Alabama. Trata-se do conturbado dra- ma psicossocial de um jovem branco, chamado Derek Morris, que tendo o seu pai morto por negros, adquiriu uma grande repulsa e ódio genético contra a raça negra, tornando-se, assim, marginalizado e líder de um movimento de supremacia branca.

A despeito de sua indiscutível inteligência e influência sobre o grupo, suas ações vio- lentas acabaram fazendo com que cometesse inúmeros crimes. O primeiro deles foi violar a inscrição no busto do líder negro, Martin Luther King, alguns meses depois da sua morte. O fato se deu numa galeria de arte em Selma, quando o segregacionista apôs sobre o sobrenome Luther, o apodo ‘Lúcifer’. Outro crime imbecil foi perpetrar um brutal assassinato contra um cidadão negro no bairro onde residia.

Com esses delitos, Derek acabou preso, confessou suas ações e foi a julgamento. No entanto, devido algumas indulgências ele foi condenado somente a oito anos de prisão.      

Durante o tempo que passou numa penitenciária, Derek se vê num lugar onde todos são vistos por igual, estando sujeitos a toda sorte de castigos e violências, inclusive os menos perigosos. Todavia, por sorte recebeu uma boa ajuda para cicatrizar sua ferida discriminatória. Com determinadas seções psicoterápicas de um grupo médico, ele conseguiu despertar a sua mente e retirou aquela máscara infame que lhe encobria o caráter. Nessa reflexão ele pode perceber que todos esses anos em que defendeu a ideologia racial, só serviram para piorar a sua vida, e que, na verdade, não havia razão para esse ódio extremo existir em sua mente, pois entendeu que debaixo da epiderme, todo sangue é vermelho e que todos respiram o oxigênio vital para viver. Essa (1)xenofobia provinha de perturbações fóbicas.

            Após cumprir sua pena, Derek retorna para sua família totalmente mudado e curado, disposto a reiniciar sua vida e ajudar seu irmão, Danny de 16 anos, que estava seguindo exa- tamente pelo mesmo caminho que ele. Danny idolatrava Derek e, por tê-lo como um exemplo de líder, mantinha os mesmos sentimentos e ideais xenofóbicos de intolerância para com os negros da cidade de Selma.

Derek então, tenta por todos os meios fazer seu irmão assimilar a lição que ele havia colhido na prisão. No entanto, Danny, por ser um adolescente conturbado pelas perdas fami- liares em sua vida (o pai e um irmão mais velho, mortos), não dá ouvidos a Derek e continua com os seus pensamentos preconceituosos, e não demora, lança-se ao crime, que o leva, não obstante, por um caminho sem volta e sem remissão. Intempestivamente, o jovem foi conde- nado à reclusão de 20 anos por dois assassinatos cometidos contra estudantes negros.

 

Essa experiência vivencial realista foi relatada por um repórter canadense e deu origem a um filme produzido por Tony Kaye, em 1998, chamado “A Outra História Americana”.

A narrativa do filme é bem explícita, desencadeada principalmente pelo preconceito. O grupo liderado por Derek – principal protagonista do elenco –, é neonazista e se baseia nas ideias de Hitler, que passa agir com uma agressividade irracional em relação a tudo aquilo que é diferente às suas simpatias raciais, mais especificamente aos negros e hispânicos. O grupo enaltece as ideias de Joseph Goebbels, ministro de propaganda do führer alemão, na frase: “nós não falamos para dizer algo, mas agimos para obter um efeito dramático e mortal”.

Essa gangue acreditava que os impuros segregados sulistas fossem os únicos respon- sáveis pelas calamidades e conflitos sociológicos do Estado, por tirar o emprego e o espaço dos genuinamente americanos de forma ilegal, vindo com isso a destruir o “sonho dos euro- peus arianos que emigraram do Velho Mundo para a América, em busca de uma nova vida”.

Dessa forma, eles, induzidos por esse raciocínio bestial, partem para uma reconquista irreal, porém, brutal e infame, o que levou todos eles à derrota e ao confinamento penal.

Vale dizer que a película é marcante e bem sucedida em sua tentativa de nos mostrar como nasce o racismo e a forma com que ele invade a vida das pessoas, muitas vezes, as tor- nando xenófobas, incapazes de aceitar o que lhes seja diferente, a fim de lançá-las propensas a violência, além de nos fazer refletir e questionar como os Estados Unidos, um país que se auto intitula a “terra de oportunidades”, pode ser tão xenofóbico e ter enraizado na cultura do seu povo um preconceito tão hipócrita e sem fundamento.

 

ConclusãoA doença xenofóbica pode manifestar-se de diferentes formas, envolven- do relações e percepções de um grupo interno em relação a um grupo externo, incluindo o medo da perda de identidade, o receio de suas atividades, agressões e o desejo de eliminar a presença do estranho para assegurar uma suposta pureza de caráter e atos moralistas.  

A xenofobia pode ter como alvo não apenas pessoas de outros países, mas de outras culturas, subculturas, sistemas de crenças ou características físicas. O medo do desconhecido pode ser mascarado no indivíduo como aversão ou ódio, gerando daí preconceitos interraciais. Note-se, porém, que nem todo preconceito é causado pela ação da xenofobia. Ex.: extremistas islâmicos ou grupos radicais, como o EI, agem mais por intolerância política e ódio religioso.

Nesse sentido, sabe-se que o tratamento da xenofobia é feito com terapias comportamentais e exposição da pessoa doente às situações que lhe causam medo ou terror. Nessas crises, o indivíduo se conscientizará de que tais circunstâncias não são tão arriscadas como ele imaginava. No tratamento desse transtorno, o paciente absorve técnicas para lidar com os sentimentos de angústia e ansiedade para o convívio com o desconhecido que lhe causa aversão. Em casos esporádicos são utilizados medicamentos para aliviar toda a crise de ansiedade.

 

Xenofobia = (do grego: xeno = estranho; diferente + phobos = medo; aversão, repulsa) – Consiste numa antipatia e aversão profunda a outras raças e culturas, sendo também associada à fobia em relação a pessoas ou grupos diferentes, onde o indivíduo apresenta um certo receio em ter contato ou misturar-se com eles ou perder o seu status de domínio.

 

* Trabalho compilado do Livro "O Colecionador de Máscaras" - por Gerson Augusto Gastaldi. 

 

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

 

O GIGANTE ADORMECIDO

Gerson Augusto Gastaldi

 

Diante de situações extremamente difíceis digo que não é fácil encontrar uma saída para elas, isso porque, nem todos os problemas apresentam uma mesma solução, sendo que algumas delas podem ser corretas, enquanto outras não. Tudo depende da possibilidade em se resolver o enigma que as envolve. O leão que ruge muitas vezes não ataca. Naturalmente, com leões famintos não se brinca. Contudo, distintos leitores, o paraplégico Edgard Porto logrou domar leões. Acham isso impossível? Poderia ser até inacreditável, no entanto, o mérito de muita proeza está associado ao âmago do inconcebível e do imponderável ante as evidências das ações.

Retroagindo ao tempo até o desfecho da sua sina, apresento-vos aqui a experiência vivencial desse personagem, o qual moldou em si próprio uma máscara de presunção e de grandeza, opondo-se, primeiramente, às forças da natureza animal através da sua coragem inabalável e um desejo interior fortemente arraigado ao caráter de adolescente jactancioso e sonhador.

Só existem méritos ou fracassos em consideração de uma presumível escolha. Edgard, por-tanto, a escolheu para viver meritoriamente através da sua impulsividade juvenil. Não obstante, também ocorrem adversidades nas jornadas dos que perseguem uma obstinação sem freio, o que leva, posteriormente, uma pessoa recalcular a sua trajetória na trilha das dificuldades, para que possa, partindo da base, prosseguir na escalada à montanha.

Edgard Porto nasceu e floresceu vinculado a um circo itinerante chamado COLISEU, na capital Buenos Aires, Argentina. Vale dizer que os seus pais foram artistas dessa Companhia e nela ele foi mesclando conhecimentos artísticos sempre regidos através das apresentações dos componentes da trupe colisenha. Dessa forma, ele, desde menino foi convivendo no meio de inúmeras apresentações, absorvendo e bisando tudo o que fosse possível para traçar na figura do seu ego um contorno de ousadia e presunção. Tal ardor brotou no interior do seu cerne com toda a robustez juvenil e, nesse aspecto, nada conseguia impedi-lo de realizar o sonho em se tornar um artista consagrado. Além disso, seus amigos e parentes o apoiavam, estimulando os seus esforços para um aprendizado impecável. Os espetáculos são a alma de um circo e suas atrações artísticas fazem parte dos shows. Nesse contexto, invariavelmente, a predileção desse muchachosempre pendia para os animais circenses. E das inúmeras atrações que no picadeiro se exibiam, as que mais o empolgavam sempre foram a dos domadores de feras.

Dizem que Deus indica os caminhos e nós fazemos as escolhas. Dessa forma, com muitas garras e dentes, o jovem passou a aprender técnicas de domagem, iniciando-as com os cavalos, zebras, camelos e elefantes. Logo foi fortalecendo o seu convívio e a intimidade com todos eles. Depois que o mesmo alcançou plena confiança em suas atividades, lançou-se ao encontro dos tigres, ursos e leões, os quais completavam a sua alegria num misto de confiança e audácia. Ademais, ele queria mesmo era interagir com as feras.

Nesse tempo, sendo ainda adolescente e forte, um grito de supremacia pulsava com ímpeto em seu peito. Ao completar seus 17 anos de idade, o rapaz já estava muitíssimo habituado com todos os animais circenses. Locupletava-se na função. E nesse aspecto gabava-se que os bichos tinham de lhe obedecer: “pois ele era o domador invencível e não a fera”. Assim ufanava-se com os seus compartes e admiradores.

Em pouco tempo o mancebo alcançou o seu ideal, passando a experimentar da ferocidade dos grandes felinos com os quais sempre sonhara manter laços afetivos. Essa era a saga que lhe imantava a ousadia. Também foi nessa escalada que o sucesso o alcançou, e assim, conseguiu galgar a posição de domador chefe no circo. Tal mérito deveras o envaidecia.

A todas essas, supõe-se que a fatalidade seja a antípoda da bonança. Numa simples rotina de trabalho Edgard sofreu um gravíssimo acidente quando alimentava um leão congolês com alguns granitos de carne. Malgrado desígnio, por impru-dência, ele tirou da boca da fera um desses granitos e foi dá-lo a outro animal. Um irracional nem sempre compreende as reações humanas. O ato do impensado domador fez com que a fera se sentisse enciumada. Foi daí que ela instintiva-mente reagiu e partiu para cima dele, não para atacá-lo, mas para recuperar a carne que lhe fora tomada da boca.

Diante da súbita investida do leão o jovem tropeçou dentro da jaula e o granito de carne escapuliu-lhe das mãos e foi parar justamente em cima da sua coxa esquerda. O felino não sofreou e acabou abocanhando a perna do artista com tal violência que a decepou na altura da tíbia. Nesse ataque, foi como se ele tivesse sofrido uma detonação bombástica. Naquele instante horrível o domador gritou estrebuchando de dores e em seguida apagou. Foi imediatamente socorrido e quando acordou já estava sedado num hospital, mas, infelizmente a sua coxa acabou destroçada pela mandíbula afiada da fera. Ele foi operado rapidamente, contudo, a perna precisou ser amputada e foi por um milagre que permaneceu vivo.

Após esse trauma físico emocional, Edgard precisou suportar quinze meses de convalescência, lenta e dolorosamente. A sua autoestima e a alegria descambaram por terra.

Finalmente, ao receber alta hospitalar o jovem foi para casa. Depois disso, fez inúmeras sessões de fisioterapias e acompanhamentos ortopédicos, passando, enfim, a se locomover em cadeiras de rodas. Ademais, na sequência da sua recuperação ele precisou adaptar-se para o uso e poder domar uma incômoda muleta.

Após desse terrível incidente o artista ficou muito tempo imobilizado, sem quaisquer possibilidades de continuar atuando no circo. Daí que uma tristeza profunda e um grande desalento foram acampar dentro do seu atassalhado coração. Todavia, assim mesmo e diante de toda aflição, algo lhe soprava na mente para que não se afligisse, mas confiasse, pois voltaria a reviver para o circo. Para tanto era preciso esperar, lutar e acreditar em si mesmo.

Quando a vida nos derruba, geralmente temos a escolha de se levantar ou continuar no chão. Edgard consigo pensava:

“Com a força de Deus irei me erguer e caminhar sozinho... Hei de conseguir”.

Mesmo que não quebre, o caniço verga-se diante do vento. O artista acabara por desvendar-se, tirando de si mesmo a pérfida máscara de supremacia que mantinha sobre os seres irracionais. Pois no seu cônscio ele refletiu e se dobrou ao irredutível embate da ponderação que tinia em seu caráter rebelde: “Temos de ser, nós mesmos, adaptáveis e flexíveis à razão do incognoscível destino:  – essa é a força tangível da sabedoria”.

O tempo passou. Uma chama de fé e perseverança acendeu dentro de si. Em suas horas de aflição, o paraplégico refletia:

“Se o navio não sabe a que porto se dirige, então nenhum vento lhe será favorável; vou reagir e superar meus reveses, pois ainda sou jovem e forte”.

Com a ajuda da família e dos colegas circenses Edgard logrou içar as âncoras. Desse modo, ele adaptou-se a uma boa prótese e conseguiu andar sem a incômoda muleta. A diretoria do circo lhe ofereceu uma chance para recomeçar como tratador de animais e logo ele passou a cuidar dos felinos. Foi assim que ele sentiu que o gigante adormecido dentro de si acabara de despertar e bramava ferozmente para o exterior, pois queria se libertar e viver.

Nesse estado superativo ele aspirou um grande alento, pois percebeu que a esperança existe e as conquistas podem ser realizadas, mesmo que haja barreiras árduas ou arriscadas para elas. Levou tempo tal superação, até que alcançasse os seus objetivos. Dessa forma o convalescente readaptou-se como um novo artista para se tornar novamente uma das grandes atrações da casa de espetáculos, ou seja: o domador de uma perna só do Circo Coliseu.

Talvez ele fosse o único paraplégico a domar leões no mundo. Isso pode nada significar para quem está fora das jaulas. No entanto, dentro delas a visão dos personagens é outra. O Rei das Selvas não quer saber se você tem pernas ou não.

Só quem utiliza a máscara da predominância é que precisa se cuidar, pois também faz parte do ofício nessa tríade de riscos e emoções: o Domador, a Arena e o Leão.  

Assim, todas as vezes que Edgard entra em cena para realizar o seu número, ele aparece em público numa cadeira de rodas. Levanta-se dela, retira a prótese e, sobre uma perna só, agradece à plateia presente e enaltece o leão, para então enfrentá-lo com respeito e veneração. Fora da jaula o artista apresenta o seu show, atuando doravante como um exibi-cionista. Nisso, sente que desperta em sua mente outra fera que lhe ruge soberana: a humildade.

O jovem percebeu que o ‘gigante adormecido’ dentro de si acordara e nada iria detê-lo dali em diante. Ele continua o domador e sabe que agora possui uma nova oportunidade para lutar, mesmo que seja mancando jaz a sua alegria, sem perder a fé para prosseguir a vida.

Vale dizer que, com uma única perna ele possui ainda muita coragem e prudência para subjugar leões, agindo com total consciência e abnegação. Porém, a outra lhe foi arrancada pela sabedoria e onisciência do destino para que não se estribasse nas alturas e viesse voar sem ser uma criatura alada.

 

*****

 

Experiência psicológica obtida em Outubro de 2009, em San Telmo, Buenos Aires.  

    O nome do personagem foi substituído a seu  pedido para preservação da sua identidade.

 

Experiência real colhida e adaptada no livro “O Colecionador de Máscaras”

 

(por Gerson Augusto Gastaldi).