Elton Alisson | Agência FAPESP – As saúvas (Atta sexdens) enfrentam dois grandes desafios ao deixar a segurança do ninho para forragear: escolher as melhores plantas para coletar folhas e evitar serem surpreendidas por um vendaval ou um temporal, o que atrapalharia a conclusão da tarefa.

Um estudo feito por pesquisadores da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) mostrou que essas formigas cortadeiras são capazes de prever condições climáticas adversas ao perceberem mudanças na pressão atmosférica.

Ao detectar uma queda acentuada na pressão atmosférica – que na maioria dos casos é um sinal de chuva e ventos fortes iminentes –, as formigas cortadeiras passam a executar as tarefas rotineiras de corte e transporte das folhas de forma muito mais rápida. Dessa forma, conseguem coletar e armazenar a maior quantidade possível de alimentos para o ninho, observaram os pesquisadores.

Os resultados do estudo, feito no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Semioquímicos na Agricultura – um dos INCTs financiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Estado de São Paulo –, foram publicados na revista Ethology.

“Observamos que a capacidade de as formigas cortadeiras perceberem mudanças na pressão atmosférica permite prever condições meteorológicas adversas e mudar as estratégias de forrageamento”, disse à Agência FAPESP José Maurício Simões Bento, professor da Esalq-USP e um dos autores do estudo.

De acordo com o Bento, a busca de alimentos é essencial em um ninho de formigas cortadeiras, uma vez que somente uma pequena parte dos indivíduos sai da colônia.

“Muitas castas das saúvas, como a rainhas, as jardineiras e fases imaturas das formigas, permanecem no interior do ninho. Somente saem as forrageiras, para cortar e transportar as folhas, e os soldados, para defender a entrada da colônia”, explicou.

As escoteiras, que são as primeiras forrageiras a sair, têm a função de explorar os arredores do ninho e encontrar uma planta adequada para extrair as folhas. Ao localizá-la, retornam à colônia, marcando uma trilha com um feromônio para que as demais operárias possam se guiar até a planta, fazer o corte e o carregamento das folhas para o ninho.

A maior parte desse material vegetal é usada para cultivar, no interior do formigueiro, um fungo da espécie Leucoagaricus gongylophorus, com o qual essas formigas mantêm uma relação de mutualismo. As folhas trazidas pelas operárias servem de substrato para o crescimento do microrganismo, que doa parte de suas hifas (filamentos de células) para a alimentação da colônia.

“Essas formigas cortadeiras cultivam esse fungo para ter o alimento em grande disponibilidade, principalmente como uma reserva para os períodos de maior escassez”, disse Bento.

Maior rapidez

A fim de avaliar se as formigas cortadeiras são capazes de perceber variações da pressão atmosférica e, dessa forma, mudar suas estratégias de forrageamento, os pesquisadores analisaram o recrutamento de operárias e os padrões de corte e carregamento de folhas desses insetos sob condições de pressão atmosférica alta e baixa em comparação com uma condição estável.

No experimento, ninhos de saúva foram introduzidos em uma câmara barométrica e submetidos durante três horas a condições de pressão atmosférica estável (950 milibar), alta (de 958 mbar) e baixa (de 942 mbar).

“Escolhemos uma variação de pressão de 8 milibar entre as condições baixa, estável e alta, porque tem sido a média registrada nas cidades brasileiras que produzem eucalipto ou rosas, onde a saúva é considerada uma praga agrícola”, explicou Bento.

Após as diferentes condições de pressão atmosférica serem atingidas, o ninho foi filmado por uma hora, uma vez que a chuva e o vento geralmente acontecem horas após a diminuição da pressão.

Nesse estágio, a entrada do ninho foi aberta, de modo a possibilitar às formigas o acesso a uma roseira por meio de uma plataforma montada em frente às colônias.

Foram analisados estatisticamente o tempo que a primeira formiga escoteira deixou ou ninho, além do número total de operárias forrageiras e de folhas cortadas e trazidas para a colônia.

As análises indicam que, em uma condição de baixa pressão, as escoteiras deixaram seus ninhos 2,8 vezes mais rápido do que quando a pressão foi constante e 3,7 vezes mais rápido do que em alta pressão.

“As formigas percebem individualmente a queda da pressão atmosférica e, a partir disso, aumentam a eficiência no forrageamento. Essa maior agilidade permite encontrar maior quantidade de matéria vegetal, uma vez que, após o temporal, as plantas normalmente perdem parte das folhas que carregam, reduzindo a quantidade disponível”, afirmou Bento.

Os pesquisadores não observaram uma diferença no número de operárias recrutadas para a coleta das folhas. No entanto, constataram que entre 1,5 e 2 vezes mais folhas foram cortadas e trazidas para o ninho durante a queda da pressão atmosférica.

Na avaliação do pesquisador, o esforço de todas as forrageiras para transportar e trazer uma quantidade maior de alimentos para a colônia em uma situação adversa mostra a alta capacidade de tomada de decisão desses insetos em favor da manutenção do grupo, sem um controle central ou unitário. “Esse é mais um indício de quão evoluídos são esses insetos”, afirmou.

O artigo Foraging activity of leaf-cutter ants is affected by barometric pressure (DOI: 10.1111/eth.12967), de Fernando R. Sujimoto, Camila M. Costa, Caio H. L. Zitelli e José Maurício S. Bento, pode ser lido na revista Ethology em onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/eth.12967.

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